Deus de Menino e Deus de Peixe.

O Menino e a Caverna.


O Menino e a Caverna

Era Madrugada, chuva fina, estava no mar, como fazia todas as noites, procurando alguma rede na área protegida, lá mais pro Sul, na entrada do mangue, a pesca com redes era proibida.
Então, aquela voz de menino vindo da água.

É lá. Encontramos, encontramos.

E como peixe fugindo da rede, pulou dentro do barco.
Ofegante, com aquele rosto de menino sonhador e entusiasmado.
Ele tinha a voz poderosa, repetia gritando.
Encontramos. ELE mora lá.
Estará Morto ou Vivo?
Vamos lá saber, vamos pescador?

Não sou pescador, menino.
Antes mesmo de conseguir perguntar algo a ele.
O danado saiu com essa.
Você é Deus de Peixe então.
Se não é pescador é Deus de Peixe.

Saltando, mergulhando nas águas geladas.
Ei menino, ei garoto.
Volte aqui. Gritei.
Venha você até a ilha.
Venha Deus de Peixe, venha.

Será mesmo que ELE ainda estará vivo? Falava o menino.

Quem, vivo? Quem estará vivo?

DEUS.
Gritou já distante do barco.
Será que Deus está vivo, ainda?
Meu Pai mora com ele, mora com Deus.

Olhei para caneca. Para o pouco vinho restante. Pensei.
Como, Deus estará vivo?
Deus que morre. Existe também?

Ei menino. Volte aqui.
Ele continuou nadando.

Puxei a âncora, remando fui em direção a ilha, que por sinal é a ilha onde moro.

Vim morar aqui depois do naufrágio.

"A melhor isca como a necessitam caçadores e pescadores. Que se o mundo é um como sombrio bosque povoado de animais de delícias de todos os ferozes caçadores, ainda me parece assemelhar-se mais a um mar sem fundo um mar cheio de peixes e caranguejos que os próprios deuses cobiçariam a ponto de se tornarem pescadores e lançarem suas redes: tão rico é o mundo em prodígios grandes e pequenos! Principalmente o mundo dos homens; o mar dos homens a ele lanço eu minha dourada sedalha, dizendo: "Abra-te, abismo humano. Abre-te e traz-me peixes e reluzentes caranguejos! Com a minha maior isca pesco hoje pari mim os mais prodigiosos peixes humanos!" Oferta de Mel - Assim falou Zaratustra

Assim foi, o primeiro encontro com o Menino.
Jurou Deus do Peixe. 

(Miragens)
Segundo dia.

Na cabana, encontro matinal de pescadores, barcos ainda chegavam, a rotina de sempre, compra e venda de peixes, um a um fui questionando.

Alguém viu um menino, esta noite?
Nadando em direção a ilha?
Alguém viu?

Peixes, peixes é só o que vimos. Respondeu sorrindo um pescador veterano, com bigode avermelhado de vinho. Veja, quantos peixes matei.

Lembrei do que disse o menino, "Deus de Peixe".

Mataram peixes lá no mangue. Cuido dos peixes, cuidar de meninos é responsabilidade de Deus de Menino. Desde então não bebo mais vinhos também, isso é coisa para Deus de Vinho. Deus de Peixe, cuida de peixe, não de vinhos.

Por entre os barcos, surgiu então um senhor. Usando casaco preto, com botões dourados. Calça e botas, parecidas com as dos soldados ingleses. Perguntando em alta voz.

Alguém viu um menino?
Um menino, alguém viu?
Estou a procura de um menino. Alguém viu?

Sim. Sim, eu vi. Bradei forte.
Aproximou-se, o tal desconhecido, do barco onde estava, perguntando-me.

Onde? Senhor, onde viu ele?
Ajude-me encontrá-lo. Por favor. Ajude-me.

Na ilha. Ele foi em direção à Ilha. Saltou nadando, do meu barco para ilha. Respondi.

Que ilha? Onde é esta ilha?
Preciso que me leve lá. Eu lhe pago. Disse o desconhecido.


Sim levo-te. Respondi.
Porém os peixes primeiro.
Cuido dos peixes, não de meninos.

Momento seguinte, o desconhecido sentou-se no fundo molhado, a proa direcionada a ilha, no barco, remando lhe perguntei.

És pai por ventura do menino? Porque procuras o menino?

Cuidadosamente girou sua cabeça, parecendo certificar-se que estávamos só. Respondeu.

Não. Não sou pai do menino.
Já fui mãe de um menino, isso sim, fui mãe.

Nada entendendo, retruquei.
Mãe? Falaste, mãe?

Sim. Fui mãe.
Mãe devotada. Mãe cuidadosa. Mãe amorosa.
Sabedora das limitações de mãe, mantê-lo vivo, ficou na responsabilidade de Deus.
Meu filho morreu.
Afogou-se, enquanto eu o amamentava. Morreu, bebezinho ainda. Meu leite o matou.


Lágrimas brotavam de seus olhos, enquanto falava.

"Criar é a grande emancipação da dor e do alivio da vida; mas para o criador existir são necessárias muitas dores e transformações. Sim, criadores, é mister que haja na vossa vida muitas mortes amargas. Sereis assim os defensores e justificadores de tudo o que é perecível. Para o criador ser o filho que renasce, é preciso que queira ser a mãe com as dores de mãe." Nas Ilhas Bem-Aventuradas - Assim falou Zaratustra

Como mãe se és homem? perguntei.

Sou mulher, sou uma mulher.
Foi o menino, ontem ele passou na minha casa.
Perguntou se talvez eu conhecia alguém que poderia dar um pão a ele. Sim, respondi, conheço, entre, vou preparar um pra você.
Então conversamos, contei que tive um filho menino,
que morreu bebezinho, descrevi o que aconteceu.

Então ele me disse:
que eu sou agora Deus de Menino. Disse que todos os meninos precisam de mim.
Enquanto fui fechar a janela do sótão, estava chegando à noite, quando retornei ele já não estava mais.

Todos dizem que Deus é homem, por isso decidi vestir esta roupa.
Era do meu falecido marido.
Vestida de homem,
diria ao menino que sou mesmo.
Deus de Menino.

Quero convencê-lo a voltar até minha casa. Quero cuidar do menino,
como se meu filho fosse.

Pescador.
E você. La na cabana.
Primeiro os peixes.
Porque primeiro os peixes?

Depois daquele naufrágio.
Foi depois do naufrágio, tranquei meu pé.
Ficou enroscado na corda onde prendia as redes.
Fiquei preso no fundo do lago, debatendo-me como peixe fora d´agua. Prometi a Deus. Se existe mesmo, que me ajudasse. Me salvasse,
prometi usar os dias de vida que me desse para proteger os peixes.
Não lembro, como foi, sei que me livrou.
Não sou mais pescador, vivo entre eles, como espião. Aviso os peixes onde estão as redes, as armadilhas.

"Lancei as minhas redes aos mares deles para apanhar peixes, mas tão só pesquei a cabeça de um deus antigo." Assim falou Zaratustra

Existem muitos lagos, muitos mares, muitos rios.
Milhares de peixes vivem neles, menos pescador e mais um protetor agora, não mais....

Antes de completar as pedras rasparam o fundo do barco.

Habilidosa mente usou seu remo para aportar na ilha da caverna.N

Nãomais o que? Já com seus pés na areia, o Deus de Menino, perguntou.

Não mais... Ajude-me, empurre lá na popa, vamos colocá-lo lá, fora da maré.

Não mais. O cruel assassino de peixes, que outrora fui.

Respondeu, enquanto esticava uma corda,
prendendo o barco a uma árvore retorcida logo acima.

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