Racionalidade, Perigosa Masmorra - Nietzsche

Deus da Gaiola.

"A racionalidade contra o instinto. A racionalidade a todo o custo como força perigosa, como força que mina a vida!" Friedrich Nietzsche - ECCE HOMO


Liber - Nossa Originalidade é Liberdade

"Não conheço o prazer de quem recebe; e muitas vezes sonhei que roubar deveria ser ainda mais ditoso do que receber" Friedrich Nietzsche - Ecce Homo.


Carta do Menino para Nietzsche 

Senhor Nietzsche.

Lendo e relendo por várias vezes seus escritos, procurei descobrir o mirante de sua observação filosófica.

A motivação originária das definições, que registraste como pensado.

Aprofundando-me, percebi constantemente a insubordinação aos mandos diretos da racionalidade.

Registraste só energia.

Coisa comum, meu caro senhor. Nada de racional tenho observado aqui também.

Lembrei-me agora só Deus da Gaiola.

Na estação, trens barulhentos chegavam e partiam, viajantes solitários ou não, mães com crianças penduradas, malas sendo carregadas, caixas empilhadas para embarque.

Quem já passou por uma estação sabe da natureza caótica de estação.

Todos submissos ao permitido, fazendo o que pode ser feito em uma estação.

Observei essa mesmice cotidiana, inúmeras vezes.

Ali conheci o Deus da Gaiola.

Baixotinho, com sapato preto brilhante, impecável, combinava com roupas engomadas, parecendo ter acabado de vesti-las momentos antes.

Um senhorzinho contador de causos, tinha um sorriso espontâneo, que distribuía cordialmente aos transeuntes com simpatia, cumprimentando a todos.

Deus da Gaiola, tornou-se um dependente de bambus, madeiras e arames.

Naturalmente, não via que era só bambu, madeira e arame.
Vagueando, o misterioso fenômeno, torna-se imperceptível, infectado por avoamento umbrático, notório e nítido lhe é, somente as gaiolas.

A liberdade fora arrebatada, enamorado está agora a miudeza artística, aceitando ser um simples deus, Deus da Gaiola.

Com precisos entalhes, dormência ofuscante, seus feitiços emergem assombrosamente desenhos harmoniosos, policromáticos, ajustadas as madeiras e bambus disponíveis.

Todas as quintas feiras ele chegava no primeiro trem da manhã, vindo do sul, com suas gaiolas, algumas vezes lhe ajudei a levá-las ao hotelzinho perto da vila.

Na sexta feira, final da tarde ele retornava pra sua casa, sem as gaiolas, sempre reclamando que teve pouco lucro, teve que vender barato, as despesas sempre cresciam.

“Tá uma carestia tudo, passagens e o hotel, subiram, a alimentação dobrou de preço”

"Trabalho, trabalho pra nada ", dizia ele, todas as sextas feiras, quando retornava para casa.

Contudo, na próxima quinta-feira, no primeiro trem, lá estava o Deus da Gaiola, sapato lustrado, roupas engomadas, sorridente, com novas gaiolas que construíra durante a semana, para vende-las na cidade.

O Deus da Gaiola é um prisioneiro da sua própria criação.

Assim como nós, meu caro Senhor.

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